Sou pediatra há vinte e sete anos. Comecei a prática contemplativa antes mesmo de me formar, e por muito tempo achei que cuidava de duas coisas distintas — o corpo, no consultório; a atenção, na almofada de meditação. Foi a clínica que me ensinou, com calma, que essa divisão não existe.
Crianças não simulam bem. Quando uma criança chega ao consultório, a comunicação dela é quase inteiramente somática: postura, respiração, brilho do olhar, tônus muscular. Aprendi a ler esses sinais antes mesmo da queixa. E foi essa habilidade clínica — escutar o corpo antes da fala — que me reaproximou das práticas contemplativas, agora com olhos diferentes.
Espiritualidade, no sentido em que uso a palavra aqui, não tem nada a ver com crença. Tem a ver com uma qualidade de atenção. A medicina ocidental, com toda sua precisão, costuma operar num registro de urgência e protocolo. É necessário e, na maioria das emergências, suficiente. Mas há um território — o da dor crônica, da somatização, do sofrimento sem causa orgânica clara — onde o protocolo trava. É nesse território que a integração se torna não apenas útil, mas eticamente necessária.
Trabalho hoje com pacientes adultos em mentoria, e o que vejo se repetir é simples: corpos que aprenderam a não sentir, e que precisam ser convidados, com cuidado, a sentir de novo. Não há técnica mágica. Há respiração, há postura, há tempo. Há, sobretudo, alguém presente do outro lado — médico, professor, testemunha. Esse alguém é, em si, parte do tratamento.
Não defendo abandonar a medicina baseada em evidências. Defendo expandi-la para incluir o que a evidência mais antiga do mundo — a experiência direta do corpo — sempre soube. As duas linguagens podem coexistir sem que nenhuma perca rigor.
A próxima carta será mais prática: vou descrever o que é o Sagrado Êxtase, o curso que estruturei a partir desses encontros entre clínica e contemplação.
Continue o caminho
Este texto é só a porta. O método completo está no Sagrado Êxtase.
Pramod OyamaEducador e terapeuta. Tantra desde 1998. Escrevo uma carta por semana.



