Quando comecei a estudar tantra, em 1998, ainda usava jaleco branco quase todos os dias. Atendia crianças pela manhã e, à noite, lia textos que pareciam vir de outro planeta — sutras, comentários, traduções truncadas. Demorei muito a entender que o que me atraía não era o exotismo. Era o contrário: uma honestidade muito direta sobre o corpo, a atenção e o desejo, que a medicina ocidental, durante minha formação, evitava nomear.
Tantra contemporâneo, para mim, é o que sobra quando se subtrai a fantasia. Sobra um conjunto de práticas — respiração, postura, observação — que pedem do praticante o mesmo rigor que se pede de um diagnóstico: presença, paciência, ausência de pressa para concluir.
O equívoco mais comum é confundir tantra com técnica sexual. Há, sim, uma dimensão erótica nas práticas, mas o erótico aqui não é performance. É a recuperação de uma capacidade básica: sentir o que se sente, sem editar. Isso, em consultório, eu reconheço como um sintoma de saúde — e a falta disso, como uma das raízes silenciosas do adoecimento contemporâneo.
Tantra contemporâneo também não é religião. Não pede fé. Pede experimentação. As práticas funcionam como hipóteses clínicas: você testa, observa, ajusta. O que sustenta é o que continua útil ao longo dos anos.
Escrevo este diário sem a pretensão de ensinar, mas com vontade de compartilhar o que pude verificar em quase três décadas. Talvez algumas dessas notas sirvam para quem está começando, ou para quem voltou a se interessar depois de uma primeira frustração com o tema.
A próxima carta será sobre a relação entre medicina e práticas contemplativas — um território onde, finalmente, deixei de me sentir dividido.
Continue o caminho
Este texto é só a porta. O método completo está no Sagrado Êxtase.
Pramod OyamaEducador e terapeuta. Tantra desde 1998. Escrevo uma carta por semana.



